Qualquer coisa de qualquer um.

deliriosfilmicos:

Les Amours Imaginaires - 2010

Tic. Tac. Toc.

Tic. Tac. Tic. Tac.

Você poderia ficar quieto, não? Sabe, não consigo gostar de relógios. Mas não consigo pensar nisso agora, não consigo pensar em argumentos para defender esse meu ódio repentino por essas coisinhas inventadas para marcar o tempo, pra mostrar que o tempo passa tão rápido e por vezes tão devagar. Agora ele está se arrastando como um camelo. Aliás, camelos se arrastam? Suspeitei que sim. Pensei no calor que faz no deserto. Mas não fez sentido. Não fez mesmo, porque eu só estou aqui, andando de um lado para o outro, esperando algum médico aparecer pra me dar a notícia. Não pensamos num nome. Ok, ela pensou. Mas não quis fazer nenhuma homenagem para seu pai, queria algo novo… Não quero chamar meu filho de Moacir. Moacir é nome de gente velha. “Ô seu Moacir, tem pão fresquinho?”. Viu? Não quero que meu filho seja padeiro. Será que está tudo bem? Assim, eu imagino que esteja, tudo sempre esteve bem. As pontas dos meus dedos estão doendo. O motivo principal é que eu estou roendo o restos das minhas unhas, iniciando a roer meus dedos. Tic. Tac. Toc. Toc. Tic. Tac. O “toc toc” saem dos meus sapatos, não consigo parar de andar pra lá e pra cá. Minha sogra já disse: “Rapaz, te aquieta, está tudo tranquilo lá dentro. Notícia ruim chega rápido”. Notícia ruim? Obrigado, isso me deixou muito tranquilo. Já ouvi casos da maca quebrar, do médico esquecer os instrumentos, da criança nascer com o cordão enroscado no pescoço… minha sogra riu ao me olhar. Acho que estou estranho mesmo. Mas as pessoas são estranhas, não são?

As horas passam. As pessoas passam. As mães passam com seus respectivos filhos. Então passam os pais levando as malas. Pai. Papai. Logo eu. Não que seja um arrependimento, mas quando eu era novo nunca me imaginei nessa situação, sabe? Acho que sabe sim. Ou não. Não sei.

Na verdade…

- Parabéns, papai, é um menino.

E o médico aperta minha mão. Na indecisão entre rir e chorar de emoção, desmaiei.

Desirée, a voz angelical e os dizeres boêmios (que soa de uma redundância ímpar).

Embaixo da árvore, dentro do quarto, no meio da sala: o parentesco pouco nos importou. Porém, sinto que devo citá-lo nessa narrativa: Sim, éramos primos.

Independência, autoconfiança e aquelas quatro palavrinhas que os antigos boêmios franceses tanto acreditavam: beleza, verdade, liberdade e amor. Muito amor. Um rosto muito bem desenhado (que por sinal, não me cansava de perder minhas noites de sono o observando até meus olhos lacrimejarem, lembrando-me que sou um ser humano e que preciso piscar). Era uma boneca por fora, uma menina indefesa, precisando de carinho e de atenção. Isso para os leigos, que já não era o meu posto. Uma mulher cheia de anseios, com fome de conhecimento e determinada a qualquer coisa em busca da felicidade plena. Perfeito, não? Não, não é. Os nossos pais não podiam saber, os amigos também não, ninguém além de nós e da natureza que nos apreciava com tanta calma e clareza, aceitando nosso amor sem julgá-lo como feio perante os olhos de Deus. Não pensávamos nisso, não queríamos pensar, tudo o que fazia nosso coração palpitar tão rapidamente cobria os nossos erros.

Mas tudo bem, vamos falar de mim. Criado no interior, nunca tive ambições grandiosas, nunca quis ser dono de uma empresa e ter que mandar em empregados, não serve pra mim, de verdade. Sempre gostei de pintar quadros e conseguia dinheiro para sobreviver. E ter ela comigo já me era necessário para sobreviver, com pão no armário ou não. Porém, pra ela não era o suficiente, e eu queria sempre deixá-la feliz. Foi atrás do que quis e conseguiu de um jeito incrível, de um jeito que só as mulheres conseguem fazer, uma objetividade que mantenho ao sexo feminino. Me mostrou que é capaz de tudo. E admito ser um palerma e estar na mesma, ter errado em tê-la deixado escapar dentre os dedos para outro alguém, mesmo que minha consciência tenha me dito enésimas vezes de que não iria para frente. Em certas situações… em términos de relacionamentos, para ser franco, preferimos até que aquela pessoa esteja longe da gente, criando sua vida, seguindo suas determinações, tendo a vida independente que tanto quis.

E aqui, praticamente em meu leito de morte, sofrendo com tosses horríveis, ela aparece.

Sim, ela.

Ela, que eu não queria ter perdido. Mas perdi. Término necessário, quase que obrigatório.

Segurou minha mão(que pude reparar uma aliança dourada no dedo, me causando certa dor no peito) e me olhou no fundo dos olhos, falando com aquela voz angelical que só os apaixonados saberiam ouvir:

- Eu te amo. E não há ninguém nesse mundo que te ame mais do que eu.

E eu senti que era aquela a hora de dar adeus pro mundo.

Receita de Tzara para um poema dadaísta e o resultado.

- Pegue um jornal.
- Pegue a tesoura.
- Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
- Recorte o artigo.
- Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
- Agite suavemente.
- Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
- Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
- O poema se parecerá com você.
- E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.

Contraponto

Passado inocente
E um pouco de fotos
Deixados no auge passado
Revelava importância hoje
As memórias, referências como de uma época
Um pouco de nossas vidas e
já não um que brilhava no interior.

Quem sou eu?


Já quis ser diferente. Já quis ser qualquer uma. Não sei dos requisitos para participar desses grupos. Decidi, então, ser eu mesma. Não sou alguém, mas sim tudo o que está em minha volta e me agrada.
Sou um papel, uma caneta, um momento inusitado e um poema. Sou fotografias detalhadas, digitais e analógicas. Sou livros sem ficção científica. Sou um pé de alface, pé de moleque, pés descalços. Sou o bater dos dentes no inverno. Sou a cor das flores da primavera. Sou a natureza, o silêncio do meio do mato. Algumas vezes sou centro, precisamente Cidade Baixa.
Sou a energia que vem do sol, mas também o mistério silencioso da lua. Sou psicodelia hippie. Sou anos 70, um pouco 60. Sou George, Paul, Ringo e John. Sou Olga Benario. Sou feminismo. Sou liberdade de expressão. Sou igualdade entre os sexos. Sou cinema europeu, especificamente francês. Sou os boêmios de Paris. Sou também Porto Alegre, com chimarrão, bergamota azeda e pôr-do-sol. Sou domingo no sofá. Sou segunda preguiçosa e sábado com festa.
Sou Rei Leão. Sou Senta Que Lá Vem a História. Sou Quico, Chiquinha e Chaves. Sou Edith Piaf. Sou samba antigo. Sou mais rock n’ roll. Sou vestido e tênis. Sou camiseta desbotada. Sou cabelo enrolado. Unhas compridas. Sou papelarias. Sou artesanatos. Sou artes. Sou ar, fogo, terra e água.
Sou amor ou ódio, sem meio termo. Sou voz grave. Sou palavras fortes. Sou besteiras ditas. Sou críticas formais. Sou ideias soltas. Sou mais dúvida que resposta, com uma pitada de contradição. Sou a linha tênue entre o tudo e o nada, entre o sim e o não. Sou sentimentos à flor da pele. Sou sem limitações. Sou produto sem rótulo. Sou de tudo um pouco, mais perto do tudo do que do pouco.

Nota importante: Texto inspirado na crônica “Quem Sou Eu?” de Martha Medeiros.

Sei que existem quadros e quadros. Tintas que secam mais rápido que as outras. Pincéis mais delicados.
E eu quero ser pintor. Quero saber dominar a arte das tintas.
Mas, antes de tudo isso, preciso urgentemente aprender a esperar a tinta secar.